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Uma questão de caráter




Texto sobre a obra "Diário de uma Boneca" da artista 
Lia Menna Barreto, exposto na Galeria Obra Aberta


, Porto Alegre, Brasil
2001

Lia Menna Barreto apresenta aqui uma coleção de bonecas feitas por ela mesma. Lia se dispôs a fazer uma boneca por dia durante pouco mais de um ano. O resultado é um agrupamento de aproximadamente 400 bonecas dos mais variados estilos e materiais. A disposição do trabalho se dá em linhas de 7 bonecas cada , seguindo a ordenação das semanas, como num calendário.


O trabalho é muito colorido e divertido. Os materiais para a confecção das bonecas foram os mais variados. Podemos encontrar desde o papel alumínio até a madeira, passando pelo tecido, algodão e até mesmo o pauzinho de picolé - todos transformados em boneca, seja por que indicam claramente um corpo ou por que o seu entorno nos diz que tudo o que está ali são bonecas. 


É impossível ver o trabalho sem ser seduzido. Logo que entramos na galeria nos deparamos com todas aquelas bonecas nos olhando. Umas mais exibidas. Outras mais tímidas. Todas muito autênticas. E uma vez fisgados pela exuberância visual desta obra, nos tornamos terreno fértil para que Lia instaure em nós a complexidade de seu pensamento. Qual seria esse ?


Talvez não possamos fazer essa pergunta no singular. Talvez tenhamos que falar em múltiplas proposições. Mas daí também corremos o risco de ficar na superficialidade. Gostaria de, nesse momento, tentar me debruçar sobre um aspecto que me foi uma revelação deste trabalho e motivo de agradável surpresa: a Lia escritora. 


Já não é de hoje que as palavras e o texto namoram e intersectam a arte contemporânea. Aliás, esse cruzamento entre palavra e imagem vem desde o Dadaísmo. Apesar de não encontrarmos uma palavra sequer nesse trabalho de Lia, por que será que vejo uma aproximação entre texto e imagem nesta operação apresentada pela artista?


Começo pelo título do trabalho : "Diário de uma Boneca". A palavra diário pode ter vários significados. Entre eles está uma forma de registro de nossas ações, pensamentos, humores e acontecimentos em forma escrita, ao qual muitos de nós se dedicam ou já se dedicaram em algum momento da vida. Um diário pode ser um caderno de anotações no qual nos expomos e revelamos, na maioria das vezes só para nós mesmos, muitos dos nossos pensamentos mais íntimos e secretos. Diários abrigam aquela parte de nós que não cabe no nosso dia a dia, mas que no território livre do papel e da escrita encontra aconchego. 


Há algo curioso que me chama atenção na criação de um diário. Quando nos colocamos frente a um papel e nos propomos a lembrar do que aconteceu no nosso dia, me parece que esse papel vira uma tela projetiva na qual nos vemos atuando e percorrendo os caminhos (internos e externos) da nossa produção do dia. Assim, nos colocamos no papel de observadores da nossa própria existência, criando um duplo para nós mesmos - o que atua e o que observa, quem escreve e quem lê. 


Lia torna explícito esse exercício da criação de um duplo que se dá na construção de um diário. A boneca é o duplo do humano. Povos primitivos acreditam que, no ritual do vodoo, a ligação entre a boneca e a pessoa é tão íntima que, quando a boneca que representa alguém sofre uma ação, essa mesma ação seria sentida pelo referente desta boneca.

Outra pista que a Lia nos dá que indica a proximidade deste trabalho com um texto é a ordenação das bonecas em linhas de tempo que fazem o percurso da esquerda para a direita, e assim que uma linha termina, volta à esquerda da linha debaixo. Quando uma "página" é completada (cada uma com aproximadamente 9 linhas), Lia inicia a próxima página lá em cima no canto esquerdo, exatamente como fazemos na escrita ocidental. Encontramos seis "páginas" de bonecas na Galeria Obra Aberta.










Mas como é possível escrever sem palavras? Ou ler bonecas? 

A origem da palavra caráter (que é a mesma de caractere) vem nos esclarecer esse ponto. Originalmente do grego "caraktér", "a palavra significava "marca gravada" , que se expandiu para "letra" e "signo", e então começou a conotar "rosto" e "aparência" num sentido de características psicológicas mais do que físicas. É dito que isso tenha acontecido em torno do século XVII, e aqui a duplicidade da palavra "caráter" nasce."


É possível ler o diário de Lia Menna Barreto. Cada bonequinha carrega em si uma expressão, um olhar, uma história, um caráter. Muitas vezes os caracteres que Lia usa são opacos. Não conseguimos saber objetivamente o que aconteceu naquele dia da Lia. Assim como num diário, a leitura nem sempre é revelada ao outro. Algumas vezes a artista até deixa escapar uma pista: "Ah, aquelas ali foram feitas quando o meu pai estava doente. Por isso estão meio tristes". Mas a maioria guarda o seu segredo, seu mistério. E então a artista nos oferece caracteres que não são sempre legíveis. Pelo menos não em suas camadas mais profundas. Essa escritura possui códigos próprios que só mesmo a artista saberia situar, quase como se fosse um diário escrito numa outra língua, uma língua que não conhecemos... mas como pode nos ser tão familiar? 


Aí reside um mistério desse trabalho. A obstrução que essas bonecas oferecem para a leitura de camadas mais autobiográficas acaba sendo como um trampolim para que esses caracteres sirvam de possíveis dados biográficos para quem os lê. E então, o diário deixa de ser o diário da Lia e passa a ser o meu diário. E, num exercício de transferência , Lia vela o seu duplo para que possa ser o nosso duplo, e assim, encontramos pedaços nossos em seus pedaços e criamos um vínculo com o trabalho que passa a ser de uma intimidade de diário. Lia cria caracteres que poderiam muito bem habitar as páginas de nosso diário mais secreto. Expande assim a escrita. Cria um vocabulário e caracteres que nomeiam tantos sentimentos e sensações até então sem nome. Expande assim a linguagem. "Calendário de uma Boneca" é um trabalho generoso. Nos toca profundamente. Subsidia-nos com material para pensar. Pensava nisso enquanto lia.

Cargo Collective
Frogtown, Los Angeles
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