Every act of translation displaces the original in time and space, putting words in motion. The new landing ground promotes unexpected encounters and frictions with other syntaxes, minds and specificities, out of which fresh meaning may flourish. If books are situated in history, so are their translations. On the 19th of September, 2018, we received the PDF of The Mushroom at the End of the World [USA, 2015] to work on its conversion to Brazilian Portuguese. One month later, in a historical election that fractured the country, Jair Bolsonaro was elected president. Our translation takes place over the course of two years, during which Brazil underwent a violent process of rightification that culminated in 2020, when Bolsonaro’s necropolitics peaked during COVID-19 with his reply “So what?” to a journalist who informed him Brazil had just passed China in the number of deaths.

The translation arrives in Brazil in such a context, bringing in the arts of noticing. As a powerful and extensive research that manifests in-depth thought and precise language, Tsing’s elaborate work fosters imagination and supports intellectual immune systems to social and environmental violent attacks. Its rich narrative teaches us about the complexity of life on the planet, helping us to resist in times when people have become numbers, and even numbers have lost their meaning. Times when entire ecosystems have been simplified to become square kilometers, making us numb about the unprecedented extermination of biodiverse environments to give space to industrial monoculture and cattle.

In this event, translation is approached as cultural and political interventions, a creative attempt to forge new vocabularies and images that are so much needed to grasp this extraordinary crisis, which is also a crisis of representation. Translating is the most attentive way of reading, cracking open each word to capture its seeds (or spores), which are then transplanted into remote land. Inspired by Tsing’s book, that task is here expanded into different directions. It is patchy, extending into photography, film, foreign idioms, cultures and even tastes.

One of these experiments departs from the idea of the translator as fungi (or fungi as translator?). In a forest, mushrooms and plants work in collaboration, depending on each other to survive. If not through this entanglement, forests would not exist, as fungi create an intricate underground web that transports water and nutrients that benefit the trees, which in turn feed their companion species with sugar originated from photosynthesis. Translators also express that relational force. They disturb the apparent stability of the original, as they dig into its roots to transcreate meaning and nutrients across cultures, languages and mediums. In that sense, the act of translation supports the biodiversity of thought and life, saving us from the monoculture of the mind and helping navigate the end of the world, as many different ones may rise like a flush of mushrooms after the rain.

*The event was cancelled due to COVID-19.

[PT]

Cada ato de tradução desloca o original no tempo e no espaço, colocando as palavras em movimento. O novo campo de pouso promove encontros inesperados e atritos com outras sintaxes, mentes e especificidades, das quais um novo significado pode florescer. Se os livros estão situados na história, o mesmo ocorre com suas traduções. No dia 19 de setembro de 2018, recebemos o PDF de O Cogumelo no Fim do Mundo [EUA, 2015] para trabalhar na sua conversão para o português do Brasil. Um mês depois, em uma eleição histórica que fraturou o país, Jair Bolsonaro foi eleito presidente. Nossa tradução ocorre ao longo de dois anos, durante os quais o Brasil passou por um violento processo de endireitamento que culminou em 2020, quando a necropolítica de Bolsonaro atingiu o auge durante o COVID-19 com sua resposta “E daí?” a um jornalista que o informou que o Brasil acabava de ultrapassar a China em número de mortes.

A tradução chega ao Brasil nesse contexto, trazendo a arte de perceber. Como uma pesquisa poderosa e extensa que manifesta pensamento profundo e linguagem precisa, o trabalho elaborado de Tsing estimula a imaginação e apoia o sistema imunológico intelectual a ataques violentos sociais e ambientais. Sua rica narrativa nos ensina sobre a complexidade da vida no planeta, ajudando-nos a resistir em tempos em que as pessoas se tornaram números e até mesmo os números perderam o significado. Tempos em que ecossistemas inteiros foram simplificados para se tornarem quilômetros quadrados, nos deixando entorpecidos com o extermínio sem precedentes de ambientes biodiversos para dar espaço à monocultura industrial e ao gado.

Neste evento, a tradução é abordada como intervenção cultural e política, uma tentativa criativa de forjar novos vocabulários e imagens tão necessários para apreender esta crise extraordinária, que é também uma crise de representação. Traduzir é a forma mais atenta de ler, abrindo cada palavra para capturar suas sementes (ou esporos), que depois são transplantadas para terras remotas. Inspirado no livro de Tsing, essa tarefa é aqui expandida em diferentes direções. É irregular, estendendo-se à fotografia, filmes, idiomas estrangeiros, culturas e até gostos.

Um desses experimentos parte da ideia do tradutor como fungo (ou fungo como tradutor?). Em uma floresta, cogumelos e plantas trabalham em colaboração, dependendo uns dos outros para sobreviver. Se não fosse por esse emaranhamento, as florestas não existiriam, pois os fungos criam uma intrincada teia subterrânea que transporta água e nutrientes que beneficiam as árvores, que por sua vez alimentam suas espécies companheiras com açúcar originado da fotossíntese. Os tradutores também expressam essa força relacional. Eles perturbam a aparente estabilidade do original, à medida que cavam suas raízes para transcriar significado e nutrientes em culturas, idiomas e meios. Nesse sentido, o ato da tradução sustenta a biodiversidade do pensamento e da vida, salvando-nos da monocultura da mente e ajudando a navegar no fim do mundo, pois muitos outros podem surgir como uma torrente de cogumelos depois da chuva.

* O evento foi cancelado devido ao COVID-19.